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Brasil é peça-chave
em
um novo jogo mundial
Por Hazel Henderson
O capital financeiro do Brasil
e sua maior cidade estão vibrando com entusiasmo e com um sentido de novos começos e oportunidades para impulsionar um novo modelo de desenvolvimento além do "Consenso de Washington".
Vinte anos atrás, eu descrevi (Futures Research Quarterly, 1985) como a China estaria aparecendo como um novo e importante player mundial com um modelo cultural único de desenvolvimento. Hoje, o Brasil, já a oitava maior economia do mundo, também já aparece como um ator poderosamente global com recursos culturais únicos que fazem par com seus fartos ativos naturais. Enquanto a China oferece ativos humanos incomparáveis com suas 1.2 bilhões de pessoas hábeis e engenhosas, seus recursos naturais estão depauperados. Os 170 milhões de brasileiros desfrutam de auto-suficiência energética, milhares de quilômetros de praias gloriosas, terra agrícola rica e abundante, um clima benigno, esmeraldas e outros recursos minerais preciosos, além
de depositar incomparavelmente a biodiversidade mundial.
A eleição do Presidente Luis Inácio Lula da Silva num processo democrático e civilizado revelou um novo modelo para os índices democráticos mundiais. Um novo sentido de esperança, solidariedade e proposta nacional permeia o Brasil - um gigante continental similar em tamanho com o seu vizinho Norte-americano, os Estados Unidos. Enquanto isso, análises econômicas obsoletas de mercados financeiros e do Fundo Monetário Internacional (FMI) não podem ver a riqueza real e os recursos do Brasil melhor do que entenderam os ativos culturais da China vinte anos atrás. Enclausurado no estreito "economismo" do Consenso de Washington, os analistas financeiros vêem somente indicadores monetários: habilidade para servir a dívida
externa e taxas de crescimento do PIB - entretanto social e ecologicamente
destrutivas.
O Brasil tem problemas reais: educar seus cidadãos criativos para a Era da Informação; criar mais empregos e moradias; diminuir suas grandes distâncias sociais entre ricos e pobres e reestruturar sua economia doméstica. O Brasil que o FMI e os financistas focalizam é o Brasil do déficit que representa 60% de seu PIB; risco cambial; crescimento do PIB e taxa de inflação, baseando-se mais nas estatísticas econômicas deficitárias do que na real situação
do Brasil e seus enormes potenciais.
A nova administração do Presidente Lula da Silva abraça um novo pensamento e propostas inovadoras, com programas que vão desde o globalmente reconhecida "Bolsa Escola" do novo ministro da Educação Cristovam Buarque, até os novos modelos de desenvolvimento sustentável adotados pelos mais destacados pensadores e sua comunidade empresarial. Fiquei encantada com a dimensão do novo entendimento com relação à necessidade de se tomar decisões governamentais e empresariais com indicadores mais amplos, mais sistêmicos e científicos.
Uma nova iniciativa, liderada por grupos de empresários, incluindo o influente Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social e a Fundação Getulio Vargas. Presidentes de importantes companhias brasileiras e grupos da sociedade civil, irão lançar uma grande conferência internacional em Outubro de 2003. Essa conferência irá reunir estatísticos e acadêmicos brasileiros de várias disciplinas com colegas da Europa, América do Norte e Ásia, que tiveram iniciativas pioneiras em novas contabilidades nacionais, indicadores de desenvolvimento sustentável e qualidade de vida, assim como métodos contábeis
empresariais de ponta.
Por meio dessas medidas, o capital social e ecológico do Brasil estariam sendo agregado, juntamente com a contabilidade similar a infra-estruturas publicamente financiadas (que os Estados Unidos inseriram em suas contas nacionais a partir de 1996). Isto iria equilibrar a dívida pública brasileira com esses ativos, da mesma maneira que essa correção contável inseriu um terço do superávit orçamentário americano entre 1996 e 2000. O Canadá foi atrás da medida em 1999 e saiu de um déficit orçamentário para um superávit de 50 bilhões de dólares canadenses. Outras correções ainda não realizadas pelos Estados Unidos exigem uma re-categorização da saúde e educação, que passam de "despesas" a
investimentos no capital humano.
O novo Brasil está tomando um rumo que vai além do Consenso de Washington. O novo modelo de desenvolvimento será acionado pelo investimento nos seus ativos intelectuais e humanos enquanto crescem sua robusta indústria local e a capitalização de novos setores de sustentabilidade de sua economia: energia limpa renovável (a força hídrica já é a fonte energética dominante), eficiência no sistema de transportes e infraestrutura, tecnologias limpas, desenho urbano e inovações em muitos velhos setores industriais. Por exemplo, eu conheci o campus da Universidade Católica em Porto Alegre, que estará produzindo células fotovoltaicas altamente eficientes para o desenvolvimento energético de pequenas empresas e residências em regiões
rurais.
Eu visitei os estados sulistas do Rio Grande do Sul e Paraná, que juntos com Santa Catarina, que receberam imigrantes europeus por 300 anos. Eles reproduziram pequenos e médios modelos remanescentes de empresas familiares tipicamente alemãs. Essas economias locais robustas garantem a maior parte dos empregos assim como um tipo de liderança empresarial com mentalidade civil que fazem de suas atraentes e bem planejadas cidades de Porto Alegre, Curitiba e Florianópolis,
mecas para os planejadores urbanos mundiais.
A visão das economias saudáveis de E.F. Schumacher, em que ele professa que "o pequeno é bonito" baseada no respeito às pessoas e à natureza, vive e floresce no Brasil - mas invisível às estatísticas macroeconômicas do FMI. Essa visão das economias locais prósperas e equitativas baseadas no capital da natureza, foi articulada em meu livro editado em 1981 "Política da Era Solar", assim que Ronald Reagan se tornou Presidente dos Estados Unidos. A visão de Reagan, compartilhada pela então primeira-ministra Margareth Thatcher, alicerçava as economias mundiais que estavam ingressando no século 21 olhando pelo espelho retrovisor: impondo Adam Smith e sua teoria de mercados da Inglaterra do século
18 sobre sociedades industriais complexas e interdependentes, jamais
imaginadas por Adam Smith.
Desde os anos 80 Reagan-Thatcher, muitos danos foram causados aos recursos
naturais e sociedades mundiais, através de privatizações submissas e globalização de mercados e comércio de corporações multinacionais seguindo esse modelo econômico obsoleto. Enquanto esses modelos estreitos de globalização estimulam rápidas mudanças tecnológicas - da explosão da Internet à biotecnologia - tais inovações tecnológicas são também nocivas. Elas requerem inovações sociais concomitantes e controle democrático que promova seu desenvolvimento de maneira mais sensata. Enquanto trilhões foram desperdiçados em investimentos nesses setores nos anos 90, as enormes oportunidades nos setores sustentáveis
foram negligenciadas pelos capitalistas americanos.
Hoje, uma série de livros têm ajudado a articular minha visão do século 21 com informações baseadas em tecnologias em sintonia com ondas de luz da Era Solar - dos fotonicos, computadores óticos à biotecnologia, fotovoltaicos solares, energia de hidrogênio, transportes elétricos, setores de construção
e manufatura. Esses últimos
livros, incluindo o Capital Natural de Paul Hawken, Amory e Hunter
Lowis; Biomimicry de Janine Benyus; A Dança da Terra de Elisabeth Sahtouris e o Mundo Pós-corporativo de David Korten são
amplamente lidos no Brasil.
Enquanto isso, os trabalhos
do físico austríaco Fritjof Capra - O Ponto de Mutação e a Teia da Vida têm atraído muitos seguidores, incluindo os assessores do Presidente Lula da Silva. Portanto, descobri um novo paradigma sendo articulado no Brasil e amplamente debatido entre as organizações civis, governo e empresários, assim como na mídia de massa. Nos Estados Unidos, a mídia controlada comercialmente tem ignorado bastante esse debate a respeito da transição dos métodos industriais arcaicos baseados nos combustíveis fósseis para economias tecnológicas e pós-industriais, baseadas em maior eficiência de recursos, serviços e energia renovável.
Esse grande debate começou em Porto Alegre no ano 2000 e está agora se tornando público no Brasil. Os compromissos da Agenda 21 para corrigir as contas nacionais (PIB) e outros sistemas e modelos macroeconômicos obsoletos foram assinados por 170 países na Eco 92 no Rio de Janeiro. Assim que forem implementados, o FMI, os investidores e mercados financeiros terão que corrigir suas análises e modelos de custos para ativos de capital. Muitos já adotaram ferramentas de pesquisa tecnológica e financeira sofisticadas que contabilizam com mais precisão o capital humano, cultural, social e ecológico. Essas ferramentas incluem a Iniciativa do Relatório Global (Global Reporting Initiative) em contabilidade corporativa; os critérios de performance corporativa do ISO 9000 e o ISO 14001; o SA 8000 e os parâmetros da OIT para excelência no mercado de trabalho, assim como os novos índices, limpos e éticos como no caso da BOVESPA (Brasil), London´s FTSE4Good, Grupo de Sustentabilidade da Dow Jones, os 400 Domini Social dos Estados Unidos e o Índice
CALVIN do Grupo Calvert e os Indicadores de Qualidade de Vida Calvert-Henderson
(desenvolvidos em parceria com esta autora).
Como foi documentado pela Bovespa e por Peter Camejo em seu estudo
Vantagem dos Investimentos Socialmente Responsáveis, fundador da empresa americana Progressive Asset Management, esses novos e mais completos indicadores normalmente superam os índices como Standard & Poors
e outros de Wall Street.
O Brasil pode se tornar um líder mundial na transição para a prosperidade sustentável e desenvolvimento humano. Meus ouvidos ainda sentem os ecos das universidades de Porto Alegre onde mais do que 100.000 delegados do mundo inteiro articularam formas de acelerar essa transição. "Um outro mundo é possível e alcançável!"
Quem é Hazel Henderson
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