Uma
nova referência para a economia mundial
A consultora em desenvolvimento
sustentável Hazel Henderson esteve na Unisinos durante o Simpósio
Internacional Terra Habitável
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23/5/2005 - 11h45
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Hazel defende mudanças no cálculo do PIB mundial |
Britânica, naturalizada norte-americana, a ativista e consultora em desenvolvimento sustentável
Hazel Henderson
não é nada ortodoxa quando se trata de modelos econômicos.
Reconhecida nos meios acadêmicos e com livre circulação junto a
organismos internacionais como a Organização das Nações Unidas (ONU),
ela se destaca pela ousadia de suas idéias. Uma de suas propostas é
a inclusão de atividades não-remuneradas ao cálculo do Produto
Interno Bruto (PIB), entre outros indicadores como infra-estrutura,
direitos humanos, saúde, ambiente e cultura. Hazel costuma citar
números da ONU, de 1995, segundo os quais o trabalho não-pago feito
por mulheres e não considerado no PIB mundial chega a U$ 11 trilhões.
Outros U$ 5 trilhões são realizados por homens. Significa que dois
terços do trabalho produtivo no mundo simplesmente não entram no
cálculo, alerta.
Com cerca de 20 passagens pelo país e admiradora da
diversidade brasileira, Henderson esteve no estado esta semana
participando do Simpósio Internacional Terra Habitável, promovido
pela Unisinos. Aos 72 anos, esbanjando vitalidade, seu sorriso se
amplia ainda mais quando fala da filha de 42 anos, psicóloga clínica
nos Estados Unidos, e do neto. O segredo para tanta alegria? Não
tenho patrão, revela, desde muito cedo percebi que não era
empregável e tive que me inventar. Hazel se diz uma recém-casada.
Depois de 24 anos no primeiro casamento, faz nove anos que está com
o segundo marido. Já se passaram 30 anos desde a primeira vez que
ela veio a público com suas teses, mas continua com a mesma garra.
Confira trechos de sua entrevista exclusiva.
A senhora defende que o cálculo do PIB deve
incluir indicadores como ambiente, energia, emprego e mesmo o
trabalho não-remunerado de mães, voluntários e mesmo pessoas idosas.
Por quê?
Pelo menos 50% de todo o trabalho produtivo
não é pago nos países industrializados. O percentual chega a 65% em
países em desenvolvimento. Essa movimentação de produtos e serviços
tem valores surpreendentes e chega, em alguns casos, a ser maior do
que o PIB, que não contabiliza essa importante parcela da economia.
Como calcular o trabalho não-remunerado?
Não significa necessariamente que mães ou
voluntários devam começar a ser pagos, mas é possível quantificar as
horas e relacioná-las com o salário mínimo do país e assim se tem
uma forma de cálculo. Para mães, o salário pode atingir cerca de U$
80 mil dólares por ano nos Estados Unidos. Há ainda outro método
pelo qual são somadas todas as atividades domésticas, geralmente sob
a responsabilidade da mulher, como cozinhar, cuidar do bebê e levar
as crianças para a escola. Em seguida, esse valor é comparado ao
valor dos serviços de cozinheira, babá e motorista. Nesse caso, os
números crescem ainda mais.
Em quanto tempo essas alterações devem
ocorrer? E como vão trazer melhoras efetivas para a vida das pessoas?
Minha previsão é de que em dez anos esses
números estarão sendo aceitos e incluídos nas contas internacionais.
Isso aumentará o PIB, mas temos que levar em conta a subtração dos
outros indicadores que também proponho, como danos ao ambiente e
desigualdade social. O resultado final pode não ser tão alto quanto
se espera, mas será substancial. Quando indicadores como trabalho
não-remunerado, cuidado com o ambiente e direitos humanos estiverem
contando para o PIB, muda o funcionamento da economia e, por
conseqüência, as prioridades do governo e o foco dos investimentos.
Nos países em desenvolvimento, áreas antes consideradas secundárias,
como a cultura, passam a receber mais atenção. Isso transforma a
vida das pessoas.
Qual será o impacto na economia
norte-americana?
As mudanças vão ocorrer em nível internacional.
Hoje, contas nacionais são feitas conforme um protocolo da ONU,
recomendado aos países. Esse protocolo vai ser atualizado e todos
terão que seguir as novas regras. Quanto à economia norte-americana,
não há dúvidas de que seu formato está em declínio. Conforme leis da
antropologia, o país ou organização que estiver melhor adaptado a
determinado sistema tende a sofrer muito mais quando essas condições
mudam. Não será fácil para ninguém, mas os norte-americanos, como o
resto do mundo, vão ter que se conformar com a nova realidade.
Em outra proposta, a senhora sugere também
que haja um modelo de tributação do mercado de câmbio internacional.
Os recursos seriam investidos em países em desenvolvimento. Como
fazer isso?
A tributação pode ser feita pelos bancos
centrais. Primeiramente, o argumento do Fundo Monetário
Internacional (FMI), do Banco Mundial e de economistas foi de que
não havia como recolher esse tributo. Eu e uma colega apresentamos a
proposta pela primeira vez em Copenhagen, em 1995, durante a
conferência da ONU sobre desenvolvimento social. Co-editamos um
livro sobre o assunto - The United Nations: Policy and Financing
Alternatives – e olhamos diferentes maneiras de os governos
recolherem tributos sobre atividades internacionais como passagens
de avião, envio de produtos via marítima e sobre o mercado de câmbio.
Fomos muito criticadas. Criamos então um programa de computador que
prova a viabilidade do modelo. Pedimos a patente e faz três semanas
que a recebemos e oferecemos o direito de uso e os royalties para a
ONU.
Conforme a senhora, estamos no fim da era
do dinheiro já que a informação tornou-se a moeda mundial mais
valiosa. Isso contribuirá para o fim ou pelo menos a diminuição da
desigualdade econômica?
A desigualdade relaciona-se com as estruturas
de poder dentro da sociedade. O dinheiro começou em forma de grandes
pedras, em seguida passou para moedas e papel, hoje é representado
por números na tela do computador, ou seja, informação. Resultado
disso é a força de emissoras como CNN, Bloomberg, Reuters. Será
longa a batalha até que bancos centrais, mercados e mídia abram mão
do seu controle. Mas, toda vez que há mudanças tecnológicas você
busca oportunidades para mudar o jogo. A informação está cada vez
mais acessível e as pessoas ganham novas chances de entrar na
disputa.
Quem está melhor preparado para essas
mudanças? Homens ou mulheres?
As modificações vão acontecer principalmente a
partir das mulheres e dos jovens.
E a economia brasileira?
Vejo-a como próspera. O acréscimo de
indicadores no PIB vai expor a riqueza brasileira. O Brasil é um dos
países mais ricos do mundo se consideramos o tamanho do território,
a população relativamente baixa e a quantidade de recursos ainda
pouco explorados em comparação com países desenvolvidos.
A senhora se diz apaixonada pelo Brasil.
É verdade. Perguntei aos meus amigos de São
Paulo se já posso ser considerada uma paulista júnior, por ter ido
tantas vezes para lá. E eles disseram que sim. O Brasil é o país da
criatividade, em todos os níveis, que se alia a uma imensa variedade
de culturas. Gosto do calor das pessoas nas relações pessoais. Na
Inglaterra, as pessoas não gostam de se tocar, preferem os cavalos e
os cachorros. É o mesmo com os japoneses. Por favor, não percam essa
capacidade.
Alguns de seus livros editados no Brasil
- Transcendendo a economia, Cultrix (1995)
- Construindo um mundo onde todos ganhem, Cultrix (1998)
- Além da globalização, Cultrix (2003)
Silvana Wuttke